A contribuição do design estratégico para o jornalismo contemporâneo

Resolver problemáticas humanas através da criação de novas estruturas de pensamento orientadas pela análise e proposição de cenários é a proposta do design. A união de uma coleção de ferramentas e saberes técnicos aplicados em conjunto.

Tanto o design, enquanto processo educativo e estrutural, quanto o jornalismo, visto como prática social, buscam auxiliar as pessoas a tornarem-se mais engajadas na produção e aprimoramento do saber.

Se, para Cross (1982), uma característica do design é gerar soluções rápidas e satisfatórias para um determinado problema, então, estrategicamente, a crise por que passa o jornalismo pode ser estudada sob essa ótica e a partir dela podem ser propostos caminhos de aprimoramento da atividade jornalística que, em uma visão positivista, reformulem a práxis jornalística de modo a reaproxima-la de seu objetivo fundamental e sua maior contribuição para o campo social: fundamentar o conhecimento através da informação.

Neste contexto, a teoria do Sistema Produto Serviço de Meroni (2008) compartilha propósitos com a comunicação e o sistema de produção jornalística: focar na inovação estratégica para ressignificar a prática mirando em uma solução. Solução esta que pode reorientar a produção do jornalismo, otimizando sua produção e consumo de informações. Solução esta que pode ser, também, a emancipação do sujeito contemporâneo, mais informado, mais participativo e, portanto, mais consciente.

Meroni comenta que o papel de designers estratégicos é facilitar processos de evolução do conhecimento, fomentando o diálogo entre os membros de um universo selecionado. Este também é o papel dos jornalistas, aplicado em um cenário onde já figura no horizonte uma ideia com poder e perspectiva evolutiva: a produção infográfica.

Essencialmente entendido como prática social, quando submetido à lógica capitalista da cultura de massa, o jornalismo assume também um formato de negócio. Inicialmente contraditória até poucas décadas, essa relação direta hoje começa a ganhar defensores e, sob a luz de uma nova estratégia orientada pelo design, pode desenhar um novo caminho para a constituição dialógica da tríade informação x conhecimento x sujeito.

O ponto em que o design e a comunicação se encontram nas propostas, respectivamente de Meroni (2008) e Santaella (2008) é na compreensão da cultura das mídias como um novo modelo de negócio onde o serviço (da comunicação) deixa de ser apenas uma mera “emissão” e passa a se relacionar intimamente com o receptor, agregar-lhe valor e, a um só tempo, reformular sua própria leitura de mundo e ação frente às problemáticas cotidianas.

Quanto à infografia, inserida aí como nova metodologia do modelo de negócio da comunicação, acredita-se em sua validade pelo sentimento de pertencimento e serviço de compartilhamento que ela gera no leitor. Não existe um modo linear de leitura e desenvolvimento do tema, mas um consumo facetado, personalizado e dinâmico de todo o material, onde é possível não somente informar-se mas, também, com muito mais facilidade que no sistema tradicional, relacionar-se com o conteúdo, traçando paralelos entre a subjetividade, bagagem cultural e sentido cronológico do leitor. A experiência torna-se mais completa, é o que resume Meroni quando afirma que design estratégico diz respeito à co-criação e ao diálogo.

Em defesa, tanto Dondis (2007) quanto Flusser (2007), se aprofundando no processo empírico de transcodificação de mensagens, apontam para uma retomada da imagem como protagonista dos processos de comunicação. Agora, com o aporte tecnológico, uma imagem deixa de ser somente arte e, filtrada pelo conhecimento cognitivo e científico de emissor e receptor, torna-se carregada de sentido e informação. Por possibilitar uma leitura não linear, mas disruptiva, ela torna as mensagens mais personalizadas e densas. Compreender a acurada medida de como editar tais mensagens e que aportes da infografia agregar ao processo pode ser o próximo grande desafio do jornalismo, para o qual a prática do design concede importantes contribuições.

Qual a justificativa, portanto, da prática de design ao longo do jornalismo informativo? Resumidamente, é assim que o jornalismo ganha potencial de tornar-se menos discursivo e mais dialógico, com mais efetividade. Tem a condição de pressupor a estreita relação entre significado e estrutura (Flusser), entre meio e mensagem (McLuhan) e a autonomia criativa de, em um cenário onde a forma é condicionada pelo conteúdo e vice-versa, fomentar o desenvolvimento de modelos que levem essa máxima em conta para propor uma nova prática de comunicação.

Se o que Flusser define como pensamento em superfície (advindo de conceitos imagéticos) absorver o pensamento em linha (textual), isso pode representar uma mudança radical na estrutura informativa e cultural de nossas sociedades. É um aspecto importante da crise atual e um convite à inovação.

 

Referências:

CROSS, Nigel: Designerly ways of knowing. Design Issues, volume 17, n. 3, Summer, 2001.

FLUSSER, Vilém: O mundo codificado – para uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac Naifa, 2007.

MERONI, Ana: Strategic Design: where are we now? Reflections around the foundations of a recent discipline. Strategic Design Research Journal, volume 01, n. 01, 2008.

DONDIS, Donis. Sintaxe da Linguagem Visual. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ERREA, Javier. Por qué la infografia salvará a los diarios. Pamplona: SND-E/Universidad de Navarra, 2008.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.

LOHISSE, Jean. Comunicação Anônima. Paris: Edições Universitárias, 1969.

MEDINA, Cremilda. Noticia: um produto a venda. São Paulo: Summus, 1988.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias a cibercultura. São Paulo: Paulus, 2008.

TEIXEIRA, Tattiana. Infografia como narrativa jornalística: uma discussão acerca de conceitos, praticas e expectativas. XVIII Encontro da Compôs, na PUC-MG, Belo Horizonte – MG, 2009.

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