Cartões em branco

Justo eu, que aprecio como ninguém uma bela composição de linhas e formas, pintadas com tons comoventes e detalhes que narram um quase romance sem dizer palavra qualquer. Que fecho os olhos na livraria para deixar que o tato aprecie a sutileza do papel e o contraste do verniz liso com o relevo das serigrafias. Justo eu, cheio dessas manias de gente metida a designer, não encontrei o cartão perfeito para o dia dos namorados.

Entre dezenas de capas multicoloridas, envelopes com dobras inéditas e detalhes que em nada lembravam os cartões artesanais que fazíamos em tempos de pombo-correio, não encontrei um mísero exemplar que, em seu interior, trouxesse uma página em branco.

Todos relembravam juras de amor, apimentavam desejos de fantasias e brindavam dias parecidos com uma coleção de comédias românticas. Eram bonitos, rimavam com versos emparelhados e usavam palavras elegantes. Mas foram escritos por outra pessoa e, por isso, pra mim, não pareciam sinceros.

Essa tal síndrome dos dias modernos: falamos tanto, por tanto tempo, com os dedos, a boca, os olhos, as atitudes. Em meios e línguas diferentes. Mas quando o assunto se eterniza em forma de presente, de certo modo, nossa voz fica tímida.

Procurava um cartão onde pudesse contar, em detalhes, fatos e adjetivos do meu próprio enredo de amor. Me contentei com aquele que tinha menos palavras e uma margem esquerda livre de interferências. Ali, sim, pude me divertir com doses nostálgicas de passado e paixão.

No final, emendei na emoção algo como: “hoje, pelo primeiro ano, o ‘lance’ do ‘ser um só’ faz sentido”. Passados seis anos de namoro, um de noivado e um de casamento, só agora consigo compreender a profunda dimensão que é amar alguém cotidianamente. As juras, as fantasias e os brindes continuam no pódio que sempre mereceram, mas do segundo lugar, observam os reais vencedores: os adjetivos que completam cada um destes momentos. Aqueles que, em uma relação, só brotam como fruto da rotina, da intimidade e da entrega. O clichê da paixão que vira amor.

É ali, à esquerda do cartão, que a relação de verdade acontece. Palavras simples, linhas não justificadas… É isso que, escrito a próprio punho, acredito ser a melhor opção privilegiar com a página principal.

Desejo cartões em branco, ávidos por conhecer meus cotidianos adjetivos.

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