Lição de ônibus lotado para pessoas “tradicionais”

O observava-mos do outro lado do corredor. Tentando esconder a indelicadeza de reparar em alguém, todos naquele ônibus o observavam. De canto de olho, pelo reflexo noturno da luz espelhada no vidro, cruzando despretenciosamente antes de desembarcar com um olhar de reprovação disparado sem discrição.

Haviam rostos de todos os tipos. Uma senhora de idade que, a julgar pelas fartas sacolas assentadas no banco vago ao lado, parecia voltar das compras, e um homem moreno, cabelo bagunçado pelo vento e sapatos de couro surrados por algum tipo de trabalho pesado: seus rostos balançavam de um lado para o outro em sinal de reprovação. Pareciam menos evidentes disfarçados pelo embalo do veículo, mas estavam lá, discordando do que viam.

Duas meninas quase escondiam-se nos últimos bancos do ônibus, provavelmente na tentativa de minimizar risos adolescentes que misturavam curiosidade, censura – certamente ensinada pelos pais – e um resto de inocência ainda não dissipada pelos dias de hoje. Seus olhos escondiam um pouco de preconceito por ele.

A campainha soa. O ônibus para logo adiante e desce um casal de estudantes, mochilas grandes e alguns livros de ciências e matemática entre os braços. Sua conversa é tão animada que lhes é imperceptível o foco de toda atenção dos demais.

Antes que o ônibus partisse, pela porta central sobe uma mulher carregando uma grande bolsa e um bebê no colo. Ela percebe que não haviam assentos disponíveis. Os demais passageiros também percebem isso, mas o trajeto segue sem que ninguém expresse sinal de gentileza ou colaboração. Em horas assim, cortesia, veja só, lembra mais uma palavra associada à presentes promocionais em lojas de liquidação do que a caridade e amistosidade pelo próximo.

Ainda observado pelas pessoas, o jovem de shorts curtos, camiseta solta, cabelos e sobrancelhas nitidamente made in salão de beleza se levanta, busca a mulher com o bebê nos braços e os conduz até seu lugar, ofertando-lhes a comodidade e segurança que antes o protegiam de olhos preconceituosos.

- “O que parece mais fora de contexto agora?” – pergunto para uma amiga próxima.

Uma cultura praticamente cegada por hábitos e dogmas é realmente incapaz de aceitar com fraternidade aquilo que lhe é incomum, que difere em valores e conceitos. É, todavia, a mesma cultura que prega peças em si mesma, incentivando posturas que blindam à visão, tornando-as lastimavelmente habituais e invalidando gestos outrora tão importantes, como a gentileza, a educação e o respeito.

- “O que parece mais fora de contexto agora?”, permaneço refletindo, enquanto aquele jovem julgado como diferente transparece o papel do bonzinho e o moralmente correto aparenta ser cada vez mais mau…

 

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